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um pacato beijo na face

ainda me explicarão porquê
nunca me repitas que desta água
olho-te a garrafa de pedras
despejada pelo empregado
na tua mão, ainda saberei explicar-me

um dia

apaixono-me e é tudo porque amando
alguém, mesmo que sem o querer
amando alguém mesmo que
não faça mais sentido do que
senti-lo, aguardo de cada vez que
te peço (e com as mais solícitas desculpas)
que.

espanto-me porque vens sempre ter com
migo e a minha atrapalhação toda.
olho para mim a paixão recomeçando uma
antiga lição de história a minha

é apenas uma desculpa (eu
sei) um dia, espero que pelo fim
de uma tarde, dou-te um pacato beijo
na face, de adeus e tudo não foi
mais do que um infindável
sofrimento (tenho disto), só meu.

O risco. Falhar. Ter medo de falhar. Falhar por ter medo de falhar.  Portanto o risco de falhar, a representação.

A vida como uma representação. O risco de falhar na representação da vida. Não ter medo desse risco. Hesitar. A alegria por mudar de personagem. Ainda o risco de falhar mas a alegria. A euforia. A euforia pela alegria ao mudar de personagem. Depois o medo, o medo a desaparecer. Partir.

Uma nova personagem a partir a desaparecer. Ficar a ver partir. A antiga personagem a fugir para cá da nova personagem. Escolher entre a antiga personagem que desaparece e a nova que parte. Decidir ter medo de decidir, hesitar.

Afinal não era para escolher. A escolha feita e imposta. Suportar a imposição do fim. A imagem dura muito tempo. A imagem dura muito tempo e entretanto a pessoa as personagens apanham o comboio. As personagens afastando-se na pessoa dentro do comboio. Beber.

Beber é mudar de personagem. A pessoa não acreditava nesse personagem acreditava na naturalidade. A pessoa teria encontrado a sua nova personagem, de dentro para fora ou de fora para dentro? E com que naturalidade? O que é a naturalidade, onde se separa a naturalidade da influência? Leia o resto deste artigo »

hoje tive uma longa conversa
com a minha morte. vinha
vestida de azul. sorria.
falámos vagamente de
qualquer coisa
como quem não quer ir
directamente ao assunto. depois
deixei a mão esquerda repousar-lhe
sobre a coxa direita olhei-a
e disse-lhe de caras: qual
é a tua ó minha? ficou
à procura de palavras folheou
as sobrancelhas e partiu a
virar as costas (ela é sempre
assim: muito sem ruídos
discretíssima).
a primeira vez que
nos galámos vi logo
esta tem de ser chegará
o nosso dia ainda
te hei-d’apalpar as tetinhas
aprofundaremos o diálogo
em definitivo desde a primeira troca d’olhos
em ti adivinho uma paciente e
segura paixão.
até lá semeio meus amores
fugazes e transitórios um pouco
por todo e qualquer lado nervosamente
te aguardo ó derradeira.

(fotografia photoshopada pelo Hugo C. Pinto)