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sentado em romagem ao túmulo da minha
amante desconhecida depois de ter olhado
as marcas de d.fuas na rocha
três, não, dois pares de vultos na praia em
jogo de areia esta fotografia digo filmagem
muito aérea e depois digo

para quê? porquê? como foi? pouco recordo
apenas uma fuga de automóveis ordens para
disparar, o tempo do mar salgado no
verão do acne, a fertilidade das mulheres
entretidas em troca de amabilidades
numa reunião de condóminos. deitado

em romagem ao
túmulo que há-de ser meu algures a meio caminho
de meio caminho do caminho onde ou aonde gostaria de
chegar. portanto

avé maria cheia de graça

avé maria cheia de graça o senhor curta bem convosco

os nossos dias sejam sãos
e muitos – cada vez maior a sede de sentir

era um sono meio in-
completo faltavam tu-
lipas mas era o tempo futuro onde
me seria dado habitar. os humanos
transportavam uma arquitectura
muito cheia de relíquias. os humanos
eram tudo o que tinham aprendido
a ser. aproximavam-se dos seus deuses interiores
embora a perfeição não fosse um lema e se buscasse
uma feição ainda mais perfeita
à imitação do pretérito das folhas
e das árvores.
era um sonho in-
completo faltavas
tu. li pas-
sos assim em livros antigos
o que é a contemporaneidade mais que o en-
velhecimento da antiguidade?
era um sonoleio im-
bricado. torci-me todo
na cama sem lençóis sem cama
sem ti estando ali, tu
a meu lado. a sabedoria
torna-se improvável nestas
circunstâncias e teria sido bem melhor
desertar, meio a dormir, a boca remoendo
e sabendo a tulipas
negras lendo os teus passos.

vê a dimensão das coisas
o espaço entre elas,
a voz que lhes assiste.

as coisas têm voz, paz.
a outras vozes chegam e
mexem nas coisas. as coisas

não têm voz. nem
a paz que lhes assiste.

retro versões

quando crescer quero ser puto e jogar às escondidas com o umbigo ela olhando o tecto da sua casa, a esta hora já deveríamos estar na rua fugindo do outono a estação onde nunca param os comboios felizes onde há bar aberto e cerveja pouco fresca acontece que a desenvoltura das coisas chora as lágrimas burocraticamente ainda não me acredito nisto, depois se verá, aliás o outono é uma antevisão de climas menos temperados choraria a primavera assim não sei desejo-te um verão quente e gonçalvista numa adolescência feroz talvez então conversássemos no mesmo bilinguismo opaco mas claro dizendo que oui oui non non talvez peut-être trouver la façon le rencontre,

ora destas retroversões venho reprovado
desde o ensino mais básico.

temos para já isto em comum: podemos
passear mutuamente a solidão. seguro as nozes
entre os dedos partes num sussurro chegam
os pedreiros a fio de prumo uma equação impenetrável
atrás da janela um barco adiando o seu adeus. assim
se erguem os ladris quando regressares amanhã
uma frase adormecerá no sofá – sim, até porque
ele é um bom estratega – disseste, ficarei sentado
com o copo na mão olhando o jardim e verificando
a três um jogo de dois. esbate-se o som do ferro
sobre a pedra. pela tua janela risco definitivamente
a folha de papel fabricando barcos lagos cisnes
velhos morrendo pelos bancos e um puto a
reconstruir remoinhos
a partir do dedo. podia gozar com a tua frase
ou deitá-la ao tanque, os cisnes abrindo e fechando
o bico, muito rapidamente. de qualquer forma
ele nem sequer é um bom estratega, o barco
afunda-se rapidamente. despedir reaparecer
desaparecer despir depois de adormecer. amanhã
os pedreiros regressarão ao seu caos de cimento
desalinhando em toda a parte vestígios

de um jogo a dois três ou mesmo dois.

pobres dos rios que se quedam
nos postais ilustrados, tristes os amores
que não percebem de nevoeiros
nas margens dos rios onde sonham a
selvajaria que já não têm. canalizados

eu e  mondik nos deixamos descair para a foz
passando todos os dias por um montemaior saudando
ao longe, castelo da minha areia em maré alta
nuvem da minha maré baixa
desaguando porque sim e porque não.

os rios ganharam o beneplácito de possuir
as águas que sabem que lhes vão tirar.
esse tal meu sonho era o de ser ribeirito
mordiscar teus pés uma qualquer vez que fosse
por suas margens.
sabendo-me pequenino ponto de água a engrossar
perdido entre tantos litros condenado
a chegar a uma foz que não terá
o teu nome (dava-to já) nem
mesmo passeante encontrarás
em tantas águas aquele bocadinho onde ali
por ti me desfiz mondik.

entre a infância e as pequenas regras de
apenas as crianças vírgula
têm dois pontos
vontade e cestos de vide
para
fugir de casa.
não o fazem
apenas deixam ficar
o frasco no armário. assim: si-
lêncio. fazer isso tudo já
antes mesmo sem arregaçar as mangas.
camisas sujas nos braços, os cantos
da despensa são o refúgio dos deuses.
esferográficas bic fina como metáfora
alguns processos no conhecimento
da solidão. dois pon-
tos parágrafo e travessão.

homem, mulher, deserto, maçã

Um deserto deixa-se atravessar por uma serpente uma serpente é atravessada pela maçã.

(por favor não tires os dedos
de dentro da água. Não movas
os lábios, deixa-me
uma dessas fotografias antigas
onde os amantes suspiravam
sobre o sépia a negro os cabelos)

A maçã adverte o deserto contra as areias. As areias movem-se Leia o resto deste artigo »


tinha uma calma totalmente controlada quero
dizer: por dentro fervia mas deitava fora
a tranquila fotografia dos veados numa tempe-
ratura calma ausente de cios. chegou
e já tinha ido. eu nem queria já sequer
querer

mordiscando uma perspectiva vulcânica
a língua lambendo a lava. fomos por um passeio
e tentei convencê-la: você está perante
um poeta eu nunca acreditara nisto
mas não há nada como descrer
para convencer

eficazmente ela chamava-me já pelo nome
um chui veio moer café neste moinho
o aquecimento era sobretudo telefónico
deixo-me de estórias e vou-me embora a rapariga
fica-se a acreditar este gajo era mesmo poeta
ainda há gente para tudo.

hoje tive uma longa conversa
com a minha morte. vinha
vestida de azul. sorria.
falámos vagamente de
qualquer coisa
como quem não quer ir
directamente ao assunto. depois
deixei a mão esquerda repousar-lhe
sobre a coxa direita olhei-a
e disse-lhe de caras: qual
é a tua ó minha? ficou
à procura de palavras folheou
as sobrancelhas e partiu a
virar as costas (ela é sempre
assim: muito sem ruídos
discretíssima).
a primeira vez que
nos galámos vi logo
esta tem de ser chegará
o nosso dia ainda
te hei-d’apalpar as tetinhas
aprofundaremos o diálogo
em definitivo desde a primeira troca d’olhos
em ti adivinho uma paciente e
segura paixão.
até lá semeio meus amores
fugazes e transitórios um pouco
por todo e qualquer lado nervosamente
te aguardo ó derradeira.

(fotografia photoshopada pelo Hugo C. Pinto)

trouxeram flores. secaram
nas jarras. teriam secado
também na terra.
nunca regar as plantas
com a água dos olhos.
aprender.