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Três centímetros de pele sucumbem à guerra das trincheiras. Quem coça perdidamente a ferida que lhe cega a alma perde o mundo. Pela impossibilidade de não o fazer, jugo agridoce, mata a mão (invertendo aqui o seu destino natural) a vontade. Do seu frenesi, doloridamente doido, não temos senão o símile violento do coito.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

 

A — Já não acredito em ninguém!

B — Nem mesmo em ti?

Autor: O Inquisidor

Relator: Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 56. 2007 (Julho), p. 7.]

AMAR

(Para Almeida Garrett.)

Não sei, amor, amor que não amar,

nem vinho que em mim não seja ceia.

Bebê-lo é termos lenha que se ateia,

quando a Lua encontra o seu lugar.

Amar, amor, é ser maior, amigo

de quem colhe em nós o nosso alor.

(Sabê-lo-ei colher eu, que o digo,

se além destas palavras não for?)

Não sei amar, amor, senão por ti,

mas sempre, mulher, confesso!, menti

por haver outra a seguir ao beijo.

Não sei, se não te amo, amor, amar-te

por ser por mor de mim o meu enfarte.

Amar, amor, era amar sem desejo!

Eurico de Carvalho

In «O Tecto»,

Ano XVIII, n.º 56,

Julho/2007, pág. 13.

E. and I

Ouvir-te é como se fosse marinheiro
de regresso a casa: Ulisses
dançando com Penélope.

Sentir-te é ser o perfume que te abre passagem
n’el mezzo del cammin di nostra vita: Dante
acenando a Beatriz.

Ver-te é como se tu fosses música
acesa em viva carne: Pedro
lembrando Inês.

Tocar-te, porém, é outro incêndio: pura alacridade,
corrente eléctrica nunca alterna
lavrando a adolescência do porvir.

EURICO DE CARVALHO
In «O Tecto»,
Ano XIV, n.º 37,
Julho/2002, pág. 2.

Doze de Novembro por Eurico de Carvalho

Entraste em minha casa ainda com certeza

de haver luz em Novembro. Mas doze eram

os dias, se bem te lembras, mulher, desse mês

incandescente. Deste-me logo o braço para a dança

das palavras: castanhas docemente assadas e muita

água-pé. (Estava, quando vieste, à espera do ouro

dos versos.) Pois não tremeste perante a juba negra

de um leão quase jovem, de partida para o Inverno.

Dos livros que cedo li tiraste-lhes o peso do pó

sábio. E se agora escrevo no Verão, meu amor,

só tu sabes porquê. (Deixa-me dizê-lo a toda a gente.)

Eurico de Carvalho

In «O Tecto» (Fevereiro de 2006).

(N.º 52, p. 10.)

Manifesto em Forma de Ser por Eurico de Carvalho

1. Em defesa de sermos proponho o Poema. Leia o resto deste artigo »

I

 

UMA RECORDAÇÃO DE INFÂNCIA DE LEONARDO DA VINCI

 

«Estava eu no berço, quando um abutre desceu sobre mim e me abriu a boca com a cauda. Bateu‑me várias vezes com ela nos lábios. Esse parece ser o meu destino.» Qual? Querendo desembrulhar o segredo, a mente de Sigismundo fitou lentamente a estatueta egípcia com que marcava a página do caderno de Leonardo: «Ei‑la! a ave da morte, hieróglifo da mãe!» E, com a certeza do erro da tradução alemã, registou para sempre a sentença: «fantasia homossexual passiva». Desde esse dia, do milhafre, a cauda longa e volumosa assombra a análise.

 

II

 

O APRENDIZ DE VERROCCHIO

 

A notícia galgou a loja e rompeu pelas ruas de Florença: o bastardo pintara o anjo mais vivo do quadro do mestre! Estava pronta aquela que seria a derradeira pintura de Andrea del Verrocchio: Baptismo. Porque simplesmente emudecera perante o toque devoto da mão esquerda desse rapaz de pouquíssimas falas. Dele apenas, o anjo, qual recém‑nascido, de inéditos caracóis bastos, reconhecia agora a leveza do céu. De vergonha, porém, corava surdamente o pincel cheio de terra das restantes figuras. Resignou‑se a ser por isso mesmo (com o orgulho infindável dos fortes) o famoso ourives que era. 

 

III

 

FUGA DO ÚLTIMO PATRONO DE LEONARDO

 

Febril, a pena corre sobre o papel. Francisco I, rei de França, lembra à mãe a honra que lhe resta, que a vida está salva. Prisioneiro em Madrid, nem a morte, que era a sua arma, fora avante. Esquece o frio recordando as conversas com Leonardo. No Palácio de Verão, ressoava a pergunta: «Que é mais próximo do homem: seu nome ou imagem?» O pintor defendia a soberania do visível. Mas só um uomo senza lettera poderia desconhecer a real grandeza do nome. Que um rei se disfarce, pois, de escravo negro — e fuja!

 

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 68. 2010 (Setembro), p. 14.]



Anunciação por Eurico de Carvalho

Nem sei como dizer-te a alegria com que espero
a palavra mais lúcida, secreta e semovente.
Dela, sabe-lo, se alimenta em pleno espaço
a incerta rotação dos amantes e a certeza
de ser seu o repouso. Seja ela a rosa de cristal
que amanhece em tua boca adolescente. E, crê,
por entre o orvalho — hálito da manhã —,
nunca será nosso o esquecimento do Sol.

Eurico de Carvalho

Poema publicado em Dezembro de 2002 no jornal «O Tecto» de Vila do Conde (Ano XIV: N.º 39). Cf. página 2.

Tenho momentos de leitura (de ver‑me livre de mim!) de pura bulimia. Navego então pelas estantes como quem busca a ilha nunca vista dos olhos azuis da infância. Com os recursos austeros do acaso, recruto de uma só vez a longa série militar de livros de ar fradesco. Encurtando o olhar, qual cego pedinte, consigo folheá‑los com a pressa das lebres. Mas logo a impossibilidade de os ler nesta vida invade o espaço do pó que me cerca. Sobe‑me à boca, súbito, um desgosto: toda a biblioteca parece imitar a pedra tumular da vera morte. Inexplicavelmente.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

Enquanto crescem as tardes, na sua lentíssima despedida do Inverno, encurta‑se a vida de quem escreve há quase trinta anos. Não lhe dá descanso o pensamento, assassino, de que possui mais passado que futuro. Lá fora, caindo com a fúria calada dos obsessivos, mima a chuva miudinha um cerimonial antigo: o silabar interminável de um lavrador de palavras cegas.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

Haverá palavras novas para uma quadra milenar? Será possível? Admitindo até que algures haja ainda algumas, não serão velhos os pavilhões auriculares? E dos olhos — diremos nós o quê? Deglutidos pelas luzes da cidade, tornaram‑se absurdamente cegos: não lhes falta a vista, mas não querem ver. A criança que neles morreu calcou, qual flor sem fruto, a pergunta que mais importa: «Onde está o presépio da minha infância?» Para fugir à resposta, buscam salvação num centro comercial: as barbas do Pai Natal bem merecem a diarreia de compras. 

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In Montr@ d@s Letr@s e d@s Idei@s (5 de Dezembro de 2006).]

Interrogas‑te sobre o que em ti busca o silêncio. Interrogaste até o olhar dos próprios gatos! Mas não tens aí o tempo de o barulho em volta despir essa dignidade antiga — a de ser a mais insuportável capa alegre para o adiar da obra?

 

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]