
Quando o meu homem estava vivo eu não ligava a essas coisas. Mas as velhas dormem pouco e o tempo é muito longo. Eu antes prefiro viver sozinha na minha casa que no asilo rodeada de outros velhos que nem sequer conheço. Não gosto muito, mas vivo. Há três ou quatro anos comprei um cão para me fazer companhia. É verdade que eu nunca gostei muito de animais, e sempre detestei os cães quando passam a língua deles pela nossa cara ou quando nos encostam o focinho húmido ao nariz. Gostava de ter um gato, mas sou alérgica aos pêlos. Fazem-me espirrar e depois não consigo parar. O cão era muito mal educado e enchia-me a casa de porcarias. Eu já estou velha e também não posso descer e subir escadas todos os dias e levá-lo a passear. A minha filha veio visitar-me e eu dei-lhe o cão. Ela também não o queria, também não gosta, mas eu sou teimosa e não desisti.
Uns tempos depois a minha filha lembrou-se de mim e deu-me uma prenda. Era uma dessas plantas africanas ou da Austrália. não sei bem, que tem umas flores muito bonitas que comem moscas e insectos. Ao princípio eu não gostei muito da ideia, aquilo metia-me nojo. Mas depois comecei a matar moscas para lhe dar de comer e a falar com ela como seu fosse para lhe abrir o apetite e a planta começou a fazer-me companhia. Eu andava contente e entretida, no verão há muitas moscas, as florzinhas não passavam fome.
Não sei porque razão as moscas desaparecem no inverno, é como se emigrassem. Eu passava dias ocupada, à caça. Quanto menos moscas havia mais tempo eu passava à procura delas, mais companhia a planta me fazia. Eu andava contente, é verdade. Os velhos são estranhos, contentam-se com certas manias.
Há coisa de umas semanas a planta começou a mirrar e as flores a fecharem-se. Primeiro pensei que fosse do frio, essas plantas dos trópicos são muito sensíveis. Pu-la ao pé do aquecedor que e deixava-o ligado noite e dia. As flores continuaram a fechar-se e a planta a morrer. Já só tinha uma flor bonita. Pensei que a planta tivesse fome por ser inverno e haver poucas moscas.
Comecei a não ter descanso. Levantava-me a meio da noite para surpreender moscas que estivessem a dormir e de manhã, antes de beber o café e de fazer as minhas torradas, continuava à procura de moscas. A flor boa era a única que comia e e tinha esperanças que a planta recuperasse.
Depois tive uma ideia e comecei a deixar migalhas de pão e colheres sujas de marmelada sobre as mesas para atrair as formigas. De manhã à noite não pensava noutra coisa e, se não fosse a minha querida planta estar a morrer, andaria feliz. Depois a última flor começou a mirrar, perdeu as pétalas, a planta já não comia e, final ente, morreu. Eu fiquei muito triste, perdi a minha única companhia, e o tempo tornou-se muito longo outra vez.
Algumas pessoas disseram-me que eu lhe dava comida demais, que a planta morreu com um uma espécie de congestão. Se assim foi a culpa foi minha mas eu não sabia, não podia imaginar que isso acontecesse.
Agora a primavera está a chegar e eu tenho o pressentimento que é a última vez que a vou viver. Já estou muito velha e sinto que o corpo só quer descansar. Desde que a minha planta morreu que eu ando cá com uma ideia mas não quero dizê-la à minha filha. Na primavera vou comprar uma tartaruga, dessas que vivem num aquário pequeno com uma palmeirinha de plástico no meio e uma ilha de pedras à volta.
Enquanto estiver bom tempo a tartaruga faz-me companhia e eu posso vê-la nadar e respirar, dou-lhe uns pedacinhos de pão e de carne e falo com ela. Depois quando o frio chegar, a tartaruga há-de hibernar e eu posso adormecer tranquila, e não acordar mais.
a. pedro correia