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Se falar da liberdade é utópico
Existir é ilusão
Preciso ouvir da tua boca a voz
De todos os teus membros um gesto voador
Já sem raízes, que o mar vai longe
Preciso sentir que existir é constante mutação
E num impulso
Sem penas que o corpo é belo assim
Dar um passo no céu

Domingues Pinto

Não tenho pétalas, para a flor dos teus olhos
Nem aromas para o perfume do teu coração
Entre os cheiros e os sentidos
Tenho os meus olhos perdidos!… Para se encontrar nos Teus
Numa viagem qualquer
Num lugar onde bater – bem mais forte o coração
No peito de uma gaivota
No brilho de um girassol
Ou no casco de um navio a baloiçar na maré
Pode levantar-se um vento
Podem eriçar-se as velas
Podemos partir p’ro mar

Domingues Pinto

Para ti
Abrem-se os braços das árvores
E o coração das pedras
Se te falar de seiva e sangue
Não me deixarás secar nos lábios Sonhos
Correm em nós
Dão-nos Vida
Bebo o aroma da tua voz
Saboreio o teu cheiro
Pingo que te percorre o corpo e volta a evaporar
Só!… por capricho do céu
Naquela mania de perfumar as nuvens

Domingues Pinto

Neste quarto
Onde o silêncio começa a ser galáctico passam naves para Marte.
Passa a guerra, passa o ódio, passa a ganância de morte.
Passa mais um presidente, mais um estado letal de mente.
Mais um ventre em explosão umbilical.
Enfada-se o patriotismo e estou quase a acreditar
Esta guerra foi sem crer… O homem foi enganado
Foi levado a acreditar
E ainda quer fazer querer, não haver razão p`ra drama
Não chega cá a poeira
O Petróleo vai descer e isto, vós podeis crer
Foi fuga já confirmada
Já é verdade a valer
Mais um ventre pendurado num ramo de oliveira
Ah! É da festa é verdade!
Mataram a cabra velha

Cultiva-se em folclore este ritual de morte

Dançam, bebem, pulam alto
Saltam por cima do fogo
Fazem cruzes nas ombreiras com baldes do sangue novo.
A cabra está pendurada tal oferenda em sacrifício
Estrebucha o edifício
No embondeiro do Povo.

Domingues Pinto

Nós somos um bando de depenados, a quem sobraram fraques

P´ra encobrir penugens a sair das crateras

P’ra encobrir as cicatrizes cutâneas dos machados de pedra das bombas de Napalm

Nós somos em mistura as emoções de todas as desgraças que causamos sem querer ou deliberadamente

Somos todo o tipo de riso e de choro

Somos isto tudo e mais o que inventamos

Mais os sonhos que conseguimos ter – mesmo sem querer, enrolados na noite dos lençóis imaginários

Somos os sonhadores

Somos aqueles que acreditam na miragem do beijo

E vivem apavorados com os degelos

Na retina de criança ficou azul cristalina a montanha a cair no mar

No meio o gelo é luminoso e a montanha um livro, que se desfolha em películas de RX

Contagem decrescente na adaptação do habitat

Onde se lavam umas e criam outras margens

Domingues Pinto, ilustração Hugo C. Pinto

Há actores anónimos, animais de sangue devassado vermelho e quente a construírem-lhes os templos

A servir alguma majestade que dá o nome á peça

A servir o poder, em campânulas rendilhadas com o roubo que ofusca

Para permitir que o sangue azul-lazur corra nas telas

Para permitir que a magia aconteça envolta na ignorância

Em vigor o culto do todo-poderoso

De quem só chegam os incensos e o brilho do ouro

O cenário é uma máscara mortal

Nos bastidores tudo é permitido, é outra dimensão

Em cena, elásticos maleáveis, dobram-se até dar nós, contorcionistas

Há actores anónimos, animais de sangue devassado vermelho e quente a construírem-lhes os templos

Domingues Pinto, Fotografia Paulo Abrantes

Aqui na Europa a falta de horizontes limita

Os fungos proliferam nestes prédios entre sombras e bafio

O sol é mais imaginado que sentido

E não me mexo para não desfazer a miragem de paz que a distância dá

Neste quarto virtual com paredes de vidro

Onde o clima é tropical e o silêncio de Marte

Recordo o Amor do Povo que conheci na montanha

A cobra gigante que brilhava de ouro

E o velho Manuel sempre a rir das suas histórias mágicas

Aqui tão longe do pulsar da terra

Sinto lhe o coração fraquejar

Intoxicado pelos brilhos distantes

Destas fábricas de civilização a fumegar cozinhados químicos

Venenos letais a que os ingénuos não resistem

Como é traiçoeira a distância e falsa a Paz

Neste quarto onde o silêncio começa a ser de morte

Domingues Pinto

Foto: Hugo Colares Pinto