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A. tinha tido uma infância infeliz, absolutamente solitária, aceitando apenas a presença dos pais, chorando agressivamente para se soltar de qualquer outra pessoa que lhe quisesse pegar ao colo. Na escola, vivia afastada dos colegas, sentando-se no fundo da sala e insistia em ficar sozinha. No recreio, fugia de todos, gritando “Cheiras mal!”, o que lhe valeu ser alvo da mais insensível das crueldades, a das crianças, que lhe retribuíam insultos e que tapavam o nariz com esgares de repugnância, sempre que a viam. Foi-lhe diagnosticado um distúrbio obsessivo-compulsivo que poderia desaparecer ou atenuar-se com a idade.

A verdade é que tudo continuou na mesma: na adolescência, o mesmo ensimesmamento, os dias passados no quarto em silêncio, tolerando sempre e apenas os pais. Na rua, chegava ao ponto de mudar de passeio sempre que corria o risco de se cruzar com outras pessoas. Para se deslocar entre casa e a escola, ia sempre a pé e, mesmo em dias de chuva, não andava de autocarro, após ter vomitado da primeira vez que tentou fazê-lo.

Os pais resolveram insistir noutras soluções para tentar que a filha acabasse por levar uma vida normal. Após vários testes, demorados, dolorosos, ascorosos, ouvindo palavras quase estrangeiras de tão estranhas, como anosmia, parosmia ou cacosmia, acabaram por perceber que possuía uma característica única: só cheirava o interior das pessoas. Perfumes, suores, excreções, nada o seu olfacto detectava. Descargas de adrenalina, formação de quimos e quilos, o acre da bílis, o metal do sangue a correr pelo corpo, o sulfúreo dos gases ainda retidos nos intestinos, tudo isso lhe agredia a pituitária. Quando os médicos lhe perguntaram como conseguia suportar, então, os odores internos dos pais, não soube sequer dizer se cheiravam mal ou bem. Leia o resto deste artigo »

C. nasceu de parto normal, chorou como choram todos os bebés, mamou como é costume e deu aos pais o número habitual e suficiente de más noites, sem as quais qualquer bebé se torna uma inverosimilhança de forma humana.

Passado pouco mais de um ano, a criança continuava com as mesmas virtudes e defeitos de todas as crianças cuja história é tão normal para os outros como extraordinária para os pais. Um dos vícios que tinha adquirido era o de dormir sempre com um urso de peluche que começava a ficar gasto. Numa noite trágica, o boneco desapareceu, obrigando os pais a espreitar debaixo de todos os armários, pressionados pelo choro enraivecido da criança revoltada contra um mundo que se mostrava tão injusto e incompreensível. O urso não apareceu e C. acabou por adormecer, soluçando desconsolado.

A meio da noite, os pais resolveram espreitá-lo e, espantados, viram nas mãos do filho o peluche. A mãe teve a estranha sensação de que o boneco estava como novo, mas o sono e a resolução, ainda que improvável, de um problema desviaram-lhe a atenção de pormenores que perdiam toda a importância face ao sorriso sossegado do belo adormecido. Leia o resto deste artigo »

  

N. tinha um peculiar problema de audição: só ouvia os elogios, os cumprimentos e as expressões neutras. As palavras insultuosas ou as críticas transformavam-se em sons inarticulados e uma expressão como “grande besta”, por exemplo, soava-lhe invariavelmente como “svlevio”. Apenas o facto de ser extremamente corpulento lhe valeu manter-se a salvo de agressões físicas, nas muitas ocasiões em que caminhava em direcção aos que o insultavam pedindo-lhes, sorridente, que repetissem, por favor, que não tinha percebido. Onde estava apenas um cândido surdo, os interlocutores viam um homem dotado de uma coragem tão calma que só podia ser perigoso e, intimidados, afastavam-se para desgosto de N. que ficava sempre frustrado por, mais uma vez, não ter percebido o que diziam. Para outros, não passava de um homem irritante, de uma agressividade contida. Esta sua característica tornava-o, ainda, insensível à ironia, sendo, portanto, usual, responder um sincero “Muito obrigado, é muito amável!” a alguém que lhe arremessasse um ácido “És muito esperto, és!”. Leia o resto deste artigo »

M. vivia para saborear e quase se poderia dizer que vivia porque saboreava. Considerava que saborear era o espírito, a humanidade, ao passo que comer não era mais do que o animal que somos obrigados a sustentar. A gastronomia era, para ele, um dos momentos supremos em que a natureza se transformava em humanidade.

A sua memória era gustativa, estava alojada no palato. Já em pequeno, vivia concentrado no paladar, a ponto de comer de olhos fechados, para que a visão não o alimentasse de enganadoras ilusões gustativas. Durante a infância, viveu na cozinha, provando as iguarias confeccionadas pela avó e pela mãe. Já então, tinha um gosto tão apurado que lhe cabia a ele decidir se a comida estava boa de sal ou se o açúcar era suficiente. Tinha aquilo que se poderia chamar o paladar absoluto. As suas recordações mais gratificantes estavam ligadas a comida e das viagens lembrava-se, sobretudo, dos restaurantes.

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J. possuía uma visão fora do comum que lhe permitia ver pormenores a distâncias só acessíveis a aves de rapina ou a telescópios. Durante a infância, essa capacidade permitira-lhe ocupar o tempo com inutilidades como ler o conteúdo de etiquetas de roupa interior pendurada em estendais nos décimos andares do bairro e fora-lhe útil, várias vezes, porque lhe permitia adivinhar de longe o humor do pai, o que não era coisa de somenos, uma vez que lhe permitia antecipar a escolha do comportamento ideal para cair nas boas graças paternas. Leia o resto deste artigo »

José Triste Luso levara toda a vida a fugir dos apelidos, o que nunca foi fácil, pois os nomes raptam as pessoas e não estão interessados em pedir resgate. O máximo que conseguiu foi ter ganho a alcunha de Tristão, quando teve um surto de crescimento na adolescência, abandonando a insignificância de uma altura mediana para cair numa espalhafatosa descoordenação, como se o cérebro tivesse ficado surpreendido por passar a comandar novos membros que faziam gestos autónomos, fora da vontade melancólica do rapaz. Pelo caminho, foi-se resignando a ouvir trocadilhos fáceis como “És um triste!” ou “És como os garrafões: também dizes Luso.”

José era Triste por parte da mãe e Luso por parte do pai. De ambos herdou uma melancolia conformista, resultado da mesma catequese por onde ambos tinham passado e onde se tinham conhecido. A mesma catequese onde haviam de se conhecer também biblicamente, escondidos num fugaz vão de escada, impossibilitados de se esconderem da ira de Deus, que, certamente por linhas tortas, ajudaria à maculada concepção de um filho, o pequeno José, e à assinatura de um contrato indesejado, o casamento. Leia o resto deste artigo »

 Entre as memórias da minha infância, Tentúgal é um lugar quase mágico, como são todos os cenários das memórias que dependem mais daquilo que nos contam do que daquilo de que nos lembramos. Devia ter três ou quatro anos e subia para o quadro da bicicleta do meu avô e aquela viagem até ao café, que ficava mais abaixo na estrada Coimbra-Figueira, era um cortejo em que eu era o rei, saudado e adorado pelas vozes cantantes de todos aqueles por quem passava. Havia sempre uma frescura no ar que agora atribuo à hora matinal em que decorria esta viagem e não há hora mais matinal do que aquela em que somos o centro do universo. Leia o resto deste artigo »

Berlusconi devolve pénis e mãos a Marte e a Vénus

 

 

Sou um homem de negócios, eu sei, mas isso não me impede de ter sentimentos, embora com a idade, às vezes, seja mais difícil. Felizmente, agora, há uns medicamentos azuis para ter mais sentimentos e tenho dinheiro para pagar às minhas amigas para elas terem muitos sentimentos por mim. Já se sabe que, por vezes, elas têm de me dar… uma mãozinha. Percebem a piada? Uma mãozinha? Sempre tive piada, como quando disse que o Obama era bonito e bronzeado como eu. Aquilo de Vénus e Marte andava a matar-me. Os dois ali mortinhos um pelo outro, desde a história do Cupido. Sou um homem sensível à beleza e nunca gostei que ela fosse casada com o Vulcano, esse monstro horrível. Até aposto que foi ele que mandou cortar as mãos e o pénis. Agora, só falta despir o resto da Vénus, que isto feito sempre à mão também é monótono. Tal como o Miguel Ângelo mandou o David falar, já sei o que vou dizer a Vénus e a Marte para fazerem. Sempre gostava de ver.              

O episódio do acordo assinado entre PSD e Governo em casa de Eduardo Catroga e guardado para a posteridade no telemóvel deste está tão carregado de signos e simbolismos que seria necessária uma equipa de semiólogos para produzir análises de profundidade suficiente.

Em primeiro lugar, é importante confirmar na atitude sorridente de Catroga, de telemóvel em punho, a mesma felicidade de uma criança que exibe um brinquedo novo. Que o documento assinado naquele momento histórico contribua para empobrecer pobres e remediados é algo que não pode, evidentemente, preocupar a criança que habita Catroga e Teixeira dos Santos.

Para uma completa explicação do acto, a primeira pergunta que ficou por fazer foi: se o telemóvel era propriedade de um dos retratados quem terá sido o fotógrafo? Na ausência de explicações, não me espantaria que tivesse sido, por exemplo, Ricardo Salgado, ou um desses pobres desgraçados que são obrigados à terrível provação de assistir incólumes aos sacrifícios impostos a todos os outros milionários que pululam pelas classes baixa e média.

Algum português mais distraído poderia, ainda, perguntar-se se um documento deste teor não deveria ter sido assinado no Parlamento, a casa da Democracia. Julgo, no entanto, que se trata, finalmente, de um passo lógico na carreira de PSD e PS: se o Estado é, afinal, propriedade de ambos, passa a ser perfeitamente apropriado tomarem decisões nas casas particulares de cada um.

Esta verdadeira deslocalização da Assembleia está, aliás, de acordo, com os actos de moderna gestão e vem colocar no devido lugar a hipótese de redução do número de deputados, defendida por muitos como uma medida de poupança, com a qual não concordo. Antes defendo que se feche o Dona Maria e que São Bento passe a ser Teatro Nacional, já que aí trabalha uma maioria de actores que fingem ter sido escolhidos pelo povo, que continuam a fingir que vota de acordo com o interesse dos eleitores e que obedecem cegamente às ordens dos encenadores convidados.

A minha avó, como qualquer português de gema, adora a vida dos outros. Se fosse uma adolescente, estaria agarrada à televisão por causa da “Casa dos Segredos”. À falta de televisão, recorreu, durante muitos anos, à principal máquina de espreitar de então: a janela. Como passatempo menos usual mas muito mais gratificante para qualquer coscuvulheira, adorava assistir a sessões de tribunal. Foi da sua boca que ouvi uma história que me ficou para sempre e que já não sei se foi verídica, mas é, pelo menos, instrutiva, aplicando-se totalmente aos pantomineiros que governam o país. Dois advogados, em nome dos respectivos clientes, disputaram ardentemente a propriedade de uma vaca. Terminada a sessão, despidos das funções, um dos causídicos perguntou, amigável e divertido: “Olha lá, afinal de quem é a vaca?” A resposta foi tão óbvia quanto surpreendente: “A vaca? A vaca é nossa!” Infelizmente, naquele tempo, não havia telemóveis com máquina fotográfica.

Um dos vícios de linguagem preferidos dos papagaios que constituem a classe política portuguesa é colocar o adjectivo “político(a)” a seguir a qualquer substantivo. Assim, têm surgido expressões como “coragem política” ou “honestidade política” (uma contradição nos termos?) ou – a minha preferida – “chicana política”. Em termos fonéticos, devo confessar uma inclinação quase efeminada por Durão Barroso, que pronuncia sempre “bulídiga”, num registo que se pretende superiormente viril e que – calculo – deve deixar Margarida Uva a pedir mais cherne.

Esta adjectivação é, afinal, redundante e serve, portanto, para realizar aquilo que, em termos retóricos, se chama encher chouriços ou meter palha, já que o discurso dos políticos foge da síntese formal para a nulidade do conteúdo, numa manifestação anti-natural de fascínio pelo vazio.

Cavaco Silva, o mais psitacista dos papagaios, é sintético, não por mérito, mas por insuficiência. Sempre professoral, afirma-se, agora, preocupado com a possibilidade de uma “crise política”, vitimando, também ele, o substantivo com o adjectivo da moda.

Por uma vez, Cavaco escolhe a expressão justa, embora não se aperceba de tal, porque se limita a reproduzir fórmulas e nunca a exprimir pensamentos. Efectivamente, a crise política já se arrasta há anos e o próprio Cavaco faz parte dela. Num país cujos governantes nunca planearam e sempre se limitaram a remendar, em que ano é que ainda não estivemos em crise política? Com deputados cuja única função é votar de acordo com as imposições das chefias e não como representantes do círculo eleitoral que os elegeu, teremos, alguma vez, saído da crise política? Parece-me evidente que não. A crise económica e financeira é uma mera consequência.

Há uns anos, o então ministro Rui Gomes da Silva descobriu a figura da “cabala involuntária” de que estaria a ser alvo o governo de Pedro Santana Lopes, primeiro-ministro que, nos últimos seis anos, tem sido promovido à qualidade de afinal não era assim tão mau. Aliás, não é a primeira vez que os socialistas conseguem levar o mundo a descobrir qualidades insuspeitadas em mediocridades sociais-democratas, como se pode verificar pela cadeira em que se senta Durão Barroso.

Já na altura, me interroguei como seria possível alguém estar a realizar uma cabala de modo involuntário. Cheguei a andar desconfiado de mim mesmo, porque, sem querer, poderia estar a montar uma cabala contra alguém ou contra alguma coisa e podia não saber. Temia que a polícia de choque me arrombasse a porta a qualquer momento, acusando-me de conspirações que estaria a urdir, distraído como sou. Vários amigos deixaram de me falar, cansados de me ouvir perguntar-lhes: “Olha lá, tu achas que eu sou agente involuntário de uma cabala?”

É devido a este meu passado talvez duvidoso que me solidarizo com Homer Simpson. Na verdade, o Vaticano garante que a personagem de animação é católica, mesmo que o queira esconder. No fundo, é um católico involuntário. Está para ali deitado, a coçar a barriga e a comer donuts, evitando, ao máximo, trabalhar ou educar os filhos e, sem mais nem menos, descobrem-lhe um catolicismo quase exemplar.

Esta é, efectivamente, uma das especialidades da Igreja, como uma das maiores indústrias hermenêuticas da História: forçar signos a significar. Não me espantaria que o Vaticano viesse a descobrir virtudes cristãs em determinadas actrizes, por tanto invocarem o nome de Deus e por tanto ajoelharem. O próprio rei Herodes verá, brevemente, confirmada a sua condição de católico, tendo imitado o próprio Jesus, antecipando o “Deixai vir a mim as criancinhas”, sendo que a parte em que as manda matar é absolutamente irrelevante e poderá até ter relevado de um amor excessivo. É claro que há sempre o risco de, por tanto conjecturar, ainda se vir a descobrir que o Vaticano não é católico.