A. tinha tido uma infância infeliz, absolutamente solitária, aceitando apenas a presença dos pais, chorando agressivamente para se soltar de qualquer outra pessoa que lhe quisesse pegar ao colo. Na escola, vivia afastada dos colegas, sentando-se no fundo da sala e insistia em ficar sozinha. No recreio, fugia de todos, gritando “Cheiras mal!”, o que lhe valeu ser alvo da mais insensível das crueldades, a das crianças, que lhe retribuíam insultos e que tapavam o nariz com esgares de repugnância, sempre que a viam. Foi-lhe diagnosticado um distúrbio obsessivo-compulsivo que poderia desaparecer ou atenuar-se com a idade.
A verdade é que tudo continuou na mesma: na adolescência, o mesmo ensimesmamento, os dias passados no quarto em silêncio, tolerando sempre e apenas os pais. Na rua, chegava ao ponto de mudar de passeio sempre que corria o risco de se cruzar com outras pessoas. Para se deslocar entre casa e a escola, ia sempre a pé e, mesmo em dias de chuva, não andava de autocarro, após ter vomitado da primeira vez que tentou fazê-lo.
Os pais resolveram insistir noutras soluções para tentar que a filha acabasse por levar uma vida normal. Após vários testes, demorados, dolorosos, ascorosos, ouvindo palavras quase estrangeiras de tão estranhas, como anosmia, parosmia ou cacosmia, acabaram por perceber que possuía uma característica única: só cheirava o interior das pessoas. Perfumes, suores, excreções, nada o seu olfacto detectava. Descargas de adrenalina, formação de quimos e quilos, o acre da bílis, o metal do sangue a correr pelo corpo, o sulfúreo dos gases ainda retidos nos intestinos, tudo isso lhe agredia a pituitária. Quando os médicos lhe perguntaram como conseguia suportar, então, os odores internos dos pais, não soube sequer dizer se cheiravam mal ou bem. Leia o resto deste artigo »














