Afonso Henriques foi um dos heróis da minha infância. Formei dele a imagem de um homem gigantesco, a própria essência da coragem, dotado de uma força semelhante ou mesmo superior à do Super-Homem, com uma espada do tamanho de um arranha-céus. Curiosamente, e por influência das narrativas escolares e familiares, havia também a imagem de um bom malandro, capaz de enganar o primo, para desgraça de um Egas Moniz meio enforcado, ou atacando um legado papal que acabaria por levantar o interdito espiritual graças à evidência física do gume aterrador de uma espada descomunal. Todas estas malandrices eram-me contadas como pequenos delitos necessários para que a nação tivesse alcançado a independência.
Há precisamente 882 anos, Afonso Henriques participava num outro episódio que reforçava esta imagem jocosamente negativa do nosso primeiro rei. Efectivamente, no dia 24 de Junho, o ainda infante lutou contra a própria mãe, em São Mamede, rezando a lenda que acabou por prendê-la, o que lhe teria valido a maldição que explicaria, anos mais tarde, o desastre de Badajoz. Para além da lenda, a minha imaginação infantil reduzia a batalha a uma luta desigual entre um gigante barbudo e uma velhinha sem hipóteses que, depois de derrubada da montada, teria sido arrastada para o interior de uma torre.
Hoje, para lá da efeméride e da História que a interpreta de maneira felizmente diversa da do Estado Novo, fico a pensar se esta visão de Afonso I não terá contribuído para o nascimento do chico-espertismo, essa tão essencial característica lusitana.
António Fernando Nabais



a primeira tarde portuguesa faz anos e nem pela sonora da noite me lembrava
O Afonso Henriques perde a pedalada toda quando se mede a estátua do túmulo a palmo. Fora esses apartes, os catalães acham que ele é o grande responsável pelo facto que Portugal é país e a Catalunha região…… salut i força al canut.