um pacato beijo na face

ainda me explicarão porquê
nunca me repitas que desta água
olho-te a garrafa de pedras
despejada pelo empregado
na tua mão, ainda saberei explicar-me

um dia

apaixono-me e é tudo porque amando
alguém, mesmo que sem o querer
amando alguém mesmo que
não faça mais sentido do que
senti-lo, aguardo de cada vez que
te peço (e com as mais solícitas desculpas)
que.

espanto-me porque vens sempre ter com
migo e a minha atrapalhação toda.
olho para mim a paixão recomeçando uma
antiga lição de história a minha

é apenas uma desculpa (eu
sei) um dia, espero que pelo fim
de uma tarde, dou-te um pacato beijo
na face, de adeus e tudo não foi
mais do que um infindável
sofrimento (tenho disto), só meu.

as pinturas feitas de arco-íris imaginados desfizeram-se à chuva  quando o frio metálico das lâminas queimava os cabos de uso contínuo.

e os cães bebiam o leite das garrafas espalhadas no chão e dos corpos pingando.

por mais que os homens se atirem das torres ou das escadas construídas caem sempre na terra.

domingues pinto

fotografia de amontei

 

avé maria cheia de graça

avé maria cheia de graça o senhor curta bem convosco

os nossos dias sejam sãos
e muitos – cada vez maior a sede de sentir

era um sono meio in-
completo faltavam tu-
lipas mas era o tempo futuro onde
me seria dado habitar. os humanos
transportavam uma arquitectura
muito cheia de relíquias. os humanos
eram tudo o que tinham aprendido
a ser. aproximavam-se dos seus deuses interiores
embora a perfeição não fosse um lema e se buscasse
uma feição ainda mais perfeita
à imitação do pretérito das folhas
e das árvores.
era um sonho in-
completo faltavas
tu. li pas-
sos assim em livros antigos
o que é a contemporaneidade mais que o en-
velhecimento da antiguidade?
era um sonoleio im-
bricado. torci-me todo
na cama sem lençóis sem cama
sem ti estando ali, tu
a meu lado. a sabedoria
torna-se improvável nestas
circunstâncias e teria sido bem melhor
desertar, meio a dormir, a boca remoendo
e sabendo a tulipas
negras lendo os teus passos.

No centro de saúdita dos anjos cada médico tem 1500 pacientes, hoje há consulta geral de 5 (nota de rato), marcada o ano passado, visto não ter direito a um de família. A sra dra, qual farofa brandinha, toca a despachar e a desvalorizar sintomas. Beba chás (nomeou 3) observação tá quieta que já está na hora desligarem computadores e quanto a dúvidas, a menina não sabe e são coisas ( ressonâncias magnéticas, ultra sons, lazers, onda curtas, microships) que custam muito dinheiro. 7 euros e meio se consultas de especialidade e psicóloga a 4 só sextas de manhã. Libertinos de cordel convocam balanço, em limitações próprias do abismo. Voltar mais ignorante a esta realidade muda.

Polegário era o peneirento parolo da paróquia que pacoviamente petiscava pataniscas em permanente paranóia e em perfeita parceria com profusa percentagem da patusca e petulante parvónia da pindérica província. Parecia predestinado para a proverbial pobreza, e a perturbante peçonha que o passeava só o provava. Pardacento, poeirento (3), o pobre patego parecia procurar a própria psicose que precipita a personalidade na pretensa plenitude da paz podre. Previsivelmente, a pancada provinha de um passado perturbado, e prometia o paquiderme a puta de uma parafilia perene, que pene!, perdão, que pena! Porra para o pancas (1), porra, pim!(2)

(3) Peixoto, pára, por pavor!

(1) pasme-se: é perfeitamente perceptível que Pancas é o patético personagem P. Panqueca
padecendo de pirosa pancada!

(2) poderíamos permitir-nos polvilhar prudentemente o Pancas com pertinentes pozinhos de
perlimpimpim?!

Pereira no seu pior? Pois, paciência, pá! Pfff…

ei-lo feito de árvore, erguido a um nome
crescente. a noite dos caminhos diz
- acende em mim a lâmpada, começa
a ser eterno, adita-me o teu rosto aonde voo. no
princípio, ouves a dor bulir os ramos, compreendes
para a conversa seguinte o diálogo
confuso de um rio no teu corpo.

fotografia de Miguel Manso

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um excerto:

Um comboio do metropolitano de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.800 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 5 viagens para que toda gente o visitasse.

Clique aqui para ver o relatório completo

 

A. tinha tido uma infância infeliz, absolutamente solitária, aceitando apenas a presença dos pais, chorando agressivamente para se soltar de qualquer outra pessoa que lhe quisesse pegar ao colo. Na escola, vivia afastada dos colegas, sentando-se no fundo da sala e insistia em ficar sozinha. No recreio, fugia de todos, gritando “Cheiras mal!”, o que lhe valeu ser alvo da mais insensível das crueldades, a das crianças, que lhe retribuíam insultos e que tapavam o nariz com esgares de repugnância, sempre que a viam. Foi-lhe diagnosticado um distúrbio obsessivo-compulsivo que poderia desaparecer ou atenuar-se com a idade.

A verdade é que tudo continuou na mesma: na adolescência, o mesmo ensimesmamento, os dias passados no quarto em silêncio, tolerando sempre e apenas os pais. Na rua, chegava ao ponto de mudar de passeio sempre que corria o risco de se cruzar com outras pessoas. Para se deslocar entre casa e a escola, ia sempre a pé e, mesmo em dias de chuva, não andava de autocarro, após ter vomitado da primeira vez que tentou fazê-lo.

Os pais resolveram insistir noutras soluções para tentar que a filha acabasse por levar uma vida normal. Após vários testes, demorados, dolorosos, ascorosos, ouvindo palavras quase estrangeiras de tão estranhas, como anosmia, parosmia ou cacosmia, acabaram por perceber que possuía uma característica única: só cheirava o interior das pessoas. Perfumes, suores, excreções, nada o seu olfacto detectava. Descargas de adrenalina, formação de quimos e quilos, o acre da bílis, o metal do sangue a correr pelo corpo, o sulfúreo dos gases ainda retidos nos intestinos, tudo isso lhe agredia a pituitária. Quando os médicos lhe perguntaram como conseguia suportar, então, os odores internos dos pais, não soube sequer dizer se cheiravam mal ou bem. Leia o resto deste artigo »

C. nasceu de parto normal, chorou como choram todos os bebés, mamou como é costume e deu aos pais o número habitual e suficiente de más noites, sem as quais qualquer bebé se torna uma inverosimilhança de forma humana.

Passado pouco mais de um ano, a criança continuava com as mesmas virtudes e defeitos de todas as crianças cuja história é tão normal para os outros como extraordinária para os pais. Um dos vícios que tinha adquirido era o de dormir sempre com um urso de peluche que começava a ficar gasto. Numa noite trágica, o boneco desapareceu, obrigando os pais a espreitar debaixo de todos os armários, pressionados pelo choro enraivecido da criança revoltada contra um mundo que se mostrava tão injusto e incompreensível. O urso não apareceu e C. acabou por adormecer, soluçando desconsolado.

A meio da noite, os pais resolveram espreitá-lo e, espantados, viram nas mãos do filho o peluche. A mãe teve a estranha sensação de que o boneco estava como novo, mas o sono e a resolução, ainda que improvável, de um problema desviaram-lhe a atenção de pormenores que perdiam toda a importância face ao sorriso sossegado do belo adormecido. Leia o resto deste artigo »

Três centímetros de pele sucumbem à guerra das trincheiras. Quem coça perdidamente a ferida que lhe cega a alma perde o mundo. Pela impossibilidade de não o fazer, jugo agridoce, mata a mão (invertendo aqui o seu destino natural) a vontade. Do seu frenesi, doloridamente doido, não temos senão o símile violento do coito.

Eurico de Carvalho

[Primeira Publicação: In O Tecto. N.º 60. 2008 (Fevereiro), p. 4.]

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