sentado em romagem ao túmulo da minha
amante desconhecida depois de ter olhado
as marcas de d.fuas na rocha
três, não, dois pares de vultos na praia em
jogo de areia esta fotografia digo filmagem
muito aérea e depois digo

para quê? porquê? como foi? pouco recordo
apenas uma fuga de automóveis ordens para
disparar, o tempo do mar salgado no
verão do acne, a fertilidade das mulheres
entretidas em troca de amabilidades
numa reunião de condóminos. deitado

em romagem ao
túmulo que há-de ser meu algures a meio caminho
de meio caminho do caminho onde ou aonde gostaria de
chegar. portanto

Sobre as chagas
Sobre as côdeas
Sobre as ratazanas cinéfilas e os seus lóbis
Tenho as palavras presas
Não acompanham a velocidade pró caos
Como turista fico boquiaberto com as medusas
A petrificarem a humanidade daquilo a que chamam povo
E continuam a chegar como raios de sol ao planeta
Lázaros em carne viva
Para consolo dos gordos luzidios abraçados a César
Os leões… Palitam os dentes imunes à lepra

fotografia de Sandra Guerreiro

pedro polónio

sou um homem e pinto.
acontece-me frequentemente sair de casa
para escolher uma mulher na rua,
uma desconhecida, alguém cujo rosto seja um poema,
ou simplesmente um rosto.
visto umas calças e uma camisa velha
e saio na hora de ponta,
envolvo-me na multidão e atravesso ruas sem parar,
até encontrar esta mulher.

já trouxe para casa mulheres cegas,
são fáceis de pintar,
tiram a roupa tão depressa como tiram os óculos
e despem-me em igualdade de circunstâncias.
não me fazem perguntas, falam das condições do tempo,
numa espécie de arrefecimento gradual
que vão experimentando com a idade,
e quase sempre me oferecem o corpo.

já trouxe mulheres solteiras, muito jovens,
ainda virgens, comportam-se timidamente,
não mexem em nada, fazem gestos de grande ignorância,
encolhem-se sobre a sua própria magreza,
enrolam fios de cabelo nos dedos, à espera das palavras.

já tenho recebido mulheres casadas, estupidamente infelizes,
que deixam os filhos na escola e chegam extenuadas,
como se a tarefa da maternidade fosse invencível,
ou estas visitas pudessem aliviá-las.

há uma que vem todas as sextas-feiras, descalça,
com os olhos cheios de perguntas,
as mãos tão brancas e doridas, a pele enrugada,
cada ruga um enigma para o meu complexo ofício de pintor.

hoje, quando chegou, pediu-me com gentileza,
ponha algumas flores no meu retrato,
e foi sentar-se na cadeira.
depois, quando viu o retrato disse,
ficam já estas para as que me faltarem na campa, e saiu.

alice macedo campos
(in) a mulher sus.pensa
edita-me, 2011

um pacato beijo na face

ainda me explicarão porquê
nunca me repitas que desta água
olho-te a garrafa de pedras
despejada pelo empregado
na tua mão, ainda saberei explicar-me

um dia

apaixono-me e é tudo porque amando
alguém, mesmo que sem o querer
amando alguém mesmo que
não faça mais sentido do que
senti-lo, aguardo de cada vez que
te peço (e com as mais solícitas desculpas)
que.

espanto-me porque vens sempre ter com
migo e a minha atrapalhação toda.
olho para mim a paixão recomeçando uma
antiga lição de história a minha

é apenas uma desculpa (eu
sei) um dia, espero que pelo fim
de uma tarde, dou-te um pacato beijo
na face, de adeus e tudo não foi
mais do que um infindável
sofrimento (tenho disto), só meu.

as pinturas feitas de arco-íris imaginados desfizeram-se à chuva  quando o frio metálico das lâminas queimava os cabos de uso contínuo.

e os cães bebiam o leite das garrafas espalhadas no chão e dos corpos pingando.

por mais que os homens se atirem das torres ou das escadas construídas caem sempre na terra.

domingues pinto

fotografia de amontei

 

avé maria cheia de graça

avé maria cheia de graça o senhor curta bem convosco

os nossos dias sejam sãos
e muitos – cada vez maior a sede de sentir

era um sono meio in-
completo faltavam tu-
lipas mas era o tempo futuro onde
me seria dado habitar. os humanos
transportavam uma arquitectura
muito cheia de relíquias. os humanos
eram tudo o que tinham aprendido
a ser. aproximavam-se dos seus deuses interiores
embora a perfeição não fosse um lema e se buscasse
uma feição ainda mais perfeita
à imitação do pretérito das folhas
e das árvores.
era um sonho in-
completo faltavas
tu. li pas-
sos assim em livros antigos
o que é a contemporaneidade mais que o en-
velhecimento da antiguidade?
era um sonoleio im-
bricado. torci-me todo
na cama sem lençóis sem cama
sem ti estando ali, tu
a meu lado. a sabedoria
torna-se improvável nestas
circunstâncias e teria sido bem melhor
desertar, meio a dormir, a boca remoendo
e sabendo a tulipas
negras lendo os teus passos.

No centro de saúdita dos anjos cada médico tem 1500 pacientes, hoje há consulta geral de 5 (nota de rato), marcada o ano passado, visto não ter direito a um de família. A sra dra, qual farofa brandinha, toca a despachar e a desvalorizar sintomas. Beba chás (nomeou 3) observação tá quieta que já está na hora desligarem computadores e quanto a dúvidas, a menina não sabe e são coisas ( ressonâncias magnéticas, ultra sons, lazers, onda curtas, microships) que custam muito dinheiro. 7 euros e meio se consultas de especialidade e psicóloga a 4 só sextas de manhã. Libertinos de cordel convocam balanço, em limitações próprias do abismo. Voltar mais ignorante a esta realidade muda.

Polegário era o peneirento parolo da paróquia que pacoviamente petiscava pataniscas em permanente paranóia e em perfeita parceria com profusa percentagem da patusca e petulante parvónia da pindérica província. Parecia predestinado para a proverbial pobreza, e a perturbante peçonha que o passeava só o provava. Pardacento, poeirento (3), o pobre patego parecia procurar a própria psicose que precipita a personalidade na pretensa plenitude da paz podre. Previsivelmente, a pancada provinha de um passado perturbado, e prometia o paquiderme a puta de uma parafilia perene, que pene!, perdão, que pena! Porra para o pancas (1), porra, pim!(2)

(3) Peixoto, pára, por pavor!

(1) pasme-se: é perfeitamente perceptível que Pancas é o patético personagem P. Panqueca
padecendo de pirosa pancada!

(2) poderíamos permitir-nos polvilhar prudentemente o Pancas com pertinentes pozinhos de
perlimpimpim?!

Pereira no seu pior? Pois, paciência, pá! Pfff…

ei-lo feito de árvore, erguido a um nome
crescente. a noite dos caminhos diz
- acende em mim a lâmpada, começa
a ser eterno, adita-me o teu rosto aonde voo. no
princípio, ouves a dor bulir os ramos, compreendes
para a conversa seguinte o diálogo
confuso de um rio no teu corpo.

fotografia de Miguel Manso

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um excerto:

Um comboio do metropolitano de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.800 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 5 viagens para que toda gente o visitasse.

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